Vida profissional

AVISO: alguns trechos do texto foram suprimidos para proteção das pessoas / organizações envolvidas nos eventos descritos a seguir. Aproveita-se para solicitar às pessoas ou organizações citadas que se sintam prejudicadas de alguma forma pelo texto para que se manifestem através da seção de comentários desta página ou através do e-mail mrtechsjc@yahoo.com.br

Jacareí, 1995.


Centro Paulista de Informática. Centro. Este foi o tempo e o local onde minha carreira na computação começou.

São Paulo, 2000.

Secretaria Municipal de Abastecimento. Vila Guilherme. Aí começa minha carreira como técnico de informática

São José dos Campos, 2010.

Oficina MRTECH. Jardim Portugal.

Quinze anos separam estes marcos na minha história. Cada qual com sua importância, indicando ascenção, apogeu e decadência de uma carreira bem feita, que proporcionou muitas conquistas, alegrias e tristezas e que foi encerrada.

Estas três divisões, arbitrárias, servem para ilustrar três situações na minha vida profissional, e foram escolhidas por ilustrarem a forma como tudo foi construído. Até o número é ilustrativo; o número três representa o ciclo a que todos estamos inevitavelmente e inexoravelmente presos: o início, o meio e o fim. Os vértices de um triângulo ou os lados de uma história.

Os locais também revelam a minha trajetória de vida. Paulistano desterrado, estranho e estrangeiro em todo lugar. Jacareí, São José e mesmo São Paulo, minha cidade natal, são ambientes hostis, inamistosos, cheios de armadilhas e artimanhas. Lugares onde a vida é ganha de forma criativa, ousada e sobretudo corajosa.

Não sou escritor, mas gosto de escrever. E tenho compulsão em querer deixar uma lembrança minha neste mundo das letras.

1995 – Jacareí

Se algo poderia garantir a chance de se conseguir um bom emprego administrativo no Brasil na década de 1990, esse algo era um curso de informática. A computação havia chegado há pouco nas empresas, com muitas promessas de progresso, e muitas dessas promessas se realizavam rapidamente. Em todo lugar pipocavam escolas de computação, com os mais variados métodos e fórmulas didáticas, e invariavelmente o mesmo conteúdo: sistema operacional e aplicativos para escritório. Para ser menos genérico: MS-DOS, Wordstar, Lotus 1-2-3 e dBase III. Estes aplicativos abriam as portas da computação para os sistemas personalizados, serviços automatizados, linguagens de programação e outras tantas aplicações para computadores pessoais na época.

Todavia, os cursos não eram baratos: as boas escolas, devidamente equipadas com laboratórios modernos, métodos didáticos estruturados e professores ou instrutores formados e capacitados cobravam por um curso básico valor equivalente a um PC, numa época onde um PC custava o mesmo que um carro. Até 1990, não existiam opções ditas populares para computação. A partir de 1993 começam a surgir pelas pequenas cidades e periferias cursos e escolas populares, com material mais humilde, equipamentos usados ou de segunda linha, professores menos capacitados. Sem dúvida eram cursos limitados, mas cumpriam seu papel de democratizar o aprendizado da computação e dar um rumo profissional a milhares de moleques que, como eu, não sabiam o que fazer da vida.

Meu envolvimento com a computação começou em 1995. Fiz meu primeiro curso em uma escola popular, em uma cidade pequena – Jacareí. O nome da escolinha era <<TRECHO CENSURADO A PEDIDO DOS ENVOLVIDOS>>– o nome era bem mais imponente que seu dono: uma pequena escola, decadente, espremida em uma pequena casa que já não existe no centro da cidade. Lembro-me ainda de como era montada: uma espécie de recepção e secretaria na sala da frente, uma despensa e uma copa pobremente guarnecidas; um laboratório com cinco computadores bem usados e uma sala de aula no quarto do fundo. Seus donos eram dois jovens técnicos, recém-formados e com pouco dinheiro. A única funcionária, a secretária, também fazia a limpeza do lugar. Os monitores – aquelas pessoas que auxiliam os alunos nas aulas práticas – eram ex-alunos que davam expediente no laboratório em troca de tempo para usar os computadores.

Á época que fiz o curso a tecnologia tinha evoluído e a procura era grande por escolas que lecionavam o ambiente Windows. Para lecionar tal conteúdo, eram necessários equipamentos muito mais avançados que os velhos XTs que o Centro Paulista de Informática possuía, e isso significou a progressiva decadência da escola: minha turma foi a última a contar com seis alunos. Estudava às terças e quintas-feiras, das duas às três da tarde, com aulas práticas em dias alternados. Meu material era uma pobre e fina apostila, preparada na própria escola e que continha um apanhado de comandos básicos do DOS, alguns comandos do Wordstar e do Lotus 1-2-3. O dBase era dado separadamente. O curso começou a bem da verdade em outubro de 1994 e terminou em janeiro de 1995. Como fui monitor, conto meu início de carreira nesse último ano. Eu fiz muitos trambiques para me manter como monitor: datilografava currículos e trabalhos escolares em casa para pagar meu transporte; providenciei por meios não muito corretos uma carteira de estudante para pagar meu passe escolar; ganhava uns trocados dos meus pais para comprar um lanche de vez em quando. Os donos da escola concordaram em permitir que eu fizesse trabalhos de digitação no laboratório, usando a impressora matricial deles e eventualmente dividindo o dinheiro com a secretária (que estava tendo problemas em receber seu salário em dia). Eu revezava os dias de expediente com uma garota, e geralmente eu trabalhava da uma às quatro às segundas, quartas e sextas-feiras. Comprei uma caixa de disquetes, fiz uma cópia de cada aplicativo nesses discos e comecei a praticar o que aprendi. Nos últimos tempos a escola estava em más condições: os alunos eram poucos, os atrasos das parcelas eram frequentes, um dos sócios deixou o negócio (foi lecionar Windows em outra escola no centro) e tudo dizia que a escola não ia longe. Fiquei no laboratório até o mês de abril de 1995. Ao sair, era craque em DOS, Wordstar, Lotus, dBase, Print Artist, sabia lidar com a impressora, digitava rápido e tinha uma certeza: queria trabalhar com informática, e guiaria minha carreira por esta trilha.

Era muito divertido mexer com os computadores. Não era nada parecido com o que existe hoje: eram feiosos, barulhentos, quentes, lentos e problemáticos. Por serem quase sempre fruto de descaminho, eram mal montados, mal mantidos e mal conservados. Todos tinham texto verde sobre fundo preto, nenhum era parecido com o outro e ninguém ali usava software original. Mas as caixinhas de disquete, o som dos computadores funcionando, o fascínio de poder escrever, errar, consertar, continuar escrevendo e o charme de se trabalhar com algo “tecnológico” me faziam muito bem, e os desafios bizarros que tive de superar pareciam muito fáceis de se superar naqueles dias.

<<TRECHO CENSURADO A PEDIDO DOS ENVOLVIDOS>>

A única coisa que ficou desse tempo foi o certificado de conclusão. Os disquetes, mal armazenados, não sobreviveram: ali tinha gravados meus trabalhos, alguns jogos, os aplicativos que usávamos na escola e alguns discos vazios para cópia. Disquetes Verbatim 5 1/4″, 360 kilobytes.

Mas minha carreira não decolou com o que eu aprendi em Jacareí. De tudo que vivi, ficaram lembranças truncadas e nomes esquecidos. Fui trabalhar como divulgador do <<TRECHO CENSURADO A PEDIDO DOS ENVOLVIDOS>>. Voltei para a escola – desta vez fui estudar o ambiente Windows em uma escola de ponta – a Microcamp. O curso começou em junho de 1995, com materiais primorosos, professores profissionais, equipamentos muito mais avançados e mais perto de casa. Dos cursos livres de informática que fiz, foi um dos melhores. Ali aprendi o Windows, o Word, o Excel e o Access. Devo lembrar que na época ainda não existia o pacote Office como o conhecemos hoje: os aplicativos eram comercializados separadamente, e a Microsoft ainda não era referência neste tipo de ferramenta tecnológica. Fui aluno do professor Alessandro, numa classe de quinze alunos. As aulas eram às segundas e quartas feiras, com direito a plantão de dúvidas às sextas feiras e aos domingos. Não me lembro dos valores pagos, mas guardo a proporção do que foi gasto, numa comparação entre os dois cursos: uma mensalidade da Microcamp equivalia ao curso todo do Centro Paulista de Informática!

Valeu cada centavo. Arrisco-me a dizer que, se tivesse feito o curso em outra escola não teria tido o estímulo de continuar a perseguir meu sonho. Foi na Microcamp que tive minha primeira experiência incontestavelmente profissional: pude fazer um estágio na escola ao fim do meu curso, e fiquei relativamente bastante tempo com o pessoal da Lucinéia.

Continua…

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